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MARIANA
MACHADO
DE ASSIS
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Mariana
Voltei de Europa depois de uma ausncia de quinze anos. Era quanto
bastava para vir achar muita cousa mudada. Alguns amigos tinham
morrido, outros estavam casados, outros vivos. Quatro ou cinco tinham-se
feito homens pblicos, e um deles acabava de ser ministro de Estado. Sobre
todos eles pesavam quinze anos de desiluses e cansao. Eu, entretanto,
vinha to moo como fora, no no rosto e nos cabelos, que comeavam a
embranquecer, mas na alma e no corao que estavam em flor. Foi essa a
vantagem que tirei das minhas constantes viagens. No h decepes
possveis para um viajante, que apenas v de passagem o lado belo da
natureza humana e no ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio. Mas
deixemos estas filosofias inteis.
Tambm achei mudado o nosso Rio de Janeiro, e mudado para melhor. O
jardim do Rocio, o boulevard Carceller, cinco ou seis hotis novos, novos
prdios, grande movimento comercial e popular, tudo isso fez em meu
esprito uma agradvel impresso.
Fui hospedar-me no Hotel Damiani. Chamo-lhe assim para conservar um
nome que tem para mim recordaes saudosas. Agora o hotel chama-se
Ravot. Tem defronte uma grande casa de modas e um escritrio de jornal
poltico. Dizem-me que a casa de modas faz mais negcio que o jornal. No
admira; poucos lem, mas todos se vestem.
Estava eu justamente a contemplar o espetculo novo que a rua me
oferecia quando vi passar um indivduo cuja fisionomia me no era
estranha. Desci logo  rua e cheguei  porta quando ele passava defronte.
 Coutinho! exclamei.
 Macedo! disse o interpelado correndo a mim.
Entramos no corredor e a demos aberta s nossas primeiras expanses.
 Que milagre  este? por que ests aqui? quando chegaste?
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Estas e outras perguntas fazia-me o meu amigo entre repetidos abraos.
Convidei-o a subir e a almoar comigo, o que aceitou, com a condio
porm de que iria buscar mais dous amigos nossos, que eu estimaria ver.
Eram efetivamente dous excelentes companheiros de outro tempo. Um
deles estava  frente de uma grande casa comercial; o outro, depois de
algumas vicissitudes, fizera-se escrivo de uma vara cvel.
Reunidos os quatro na minha sala do hotel, foi servido um suculento
almoo, em que alis eu e o Coutinho tomamos parte. Os outros limitavamse
a fazer a razo de alguns brindes e a propor outros.
Quiseram que eu lhes contasse as minhas viagens; cedi francamente a este
desejo natural. No lhes ocultei nada. Contei-lhes o que havia visto desde o
Tejo at o Danbio, desde Paris at Jerusalm. Fi-los assistir na imaginao
s corridas de Chantilly e s jornadas das caravanas no deserto; falei do
cu nevoento de Londres e do cu azul da Itlia. Nada me escapou; tudo
lhes referi.
Cada qual fez as suas confisses. O negociante no hesitou em dizer tudo
quanto sofrera antes de alcanar a posio atual. Deu-me notcia de que
estava casado, e tinha uma filha de dez anos no colgio. O escrivo achouse
um tanto envergonhado quando lhe tocou a vez de dizer a sua vida;
todos ns tivemos a delicadeza de no insistir nesse ponto.
Coutinho no hesitou em dizer que era mais ou menos o que era outrora a
respeito da ociosidade; sentia-se entretanto mudado e entrevia ao longe
idias de casamento.
 No te casaste? perguntei eu.
 Com a prima Amlia? disse ele; no.
 Por qu?
 Porque no foi possvel.
 Mas continuaste a vida solta que levavas?
 Que pergunta! exclamou o negociante.  a mesma cousa que era h
quinze anos. No mudou nada.
 No digas isso; mudei.
 Para pior? perguntei eu rindo.
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 No, disse Coutinho, no sou pior do que era; mudei nos sentimentos;
acho que hoje no me vale a pena cuidar de ser mais feliz do que sou.
 E podias s-lo, se te houvesse casado com tua prima. Amava-te muito
aquela moa; ainda me lembro das lgrimas que lhes vi derramar em um
dia de entrudo. Lembras-te?
 No me lembra, disse Coutinho ficando mais srio do que estava; mais
creio que deve ter sido isso.
 E o que  feito dela?
 Casou.
 Ah!
  hoje fazendeira; e d-se perfeitamente com o marido. Mas no falemos
nisto, acrescentou Coutinho, enchendo um clix de cognac; o que l vai, l
vai!
Houve alguns instantes de silncio, que eu no quis interromper, por me
parecer que o nome da moa trouxera ao rapaz alguma recordao
dolorosa.
Rapaz  uma maneira de dizer. Coutinho contava j seus trinta e nove anos
e tinha alguns fios brancos na cabea e na barba. Mas apesar desse
evidente sinal do tempo, eu aprazia-me em ver os meu amigos pelo prisma
da recordao que levara deles.
Coutinho foi o primeiro que rompeu o silncio.
 Pois que estamos aqui reunidos, disse ele, ao cabo de quinze anos,
deixem que, sem exemplo, e para completar as nossas confidncias
recprocas, eu lhes confesse uma cousa, que nunca saiu de mim.
 Bravo! disse eu; ouamos a confidncia de Coutinho.
Acendemos nossos charutos. Coutinho comeou a falar:
 Eu namorava a prima Amlia, como sabem; o nosso casamento devia
efetuar-se um ano depois que daqui saste. No se efetuou por
circunstncias que ocorreram depois, e com grande mgoa minha, pois
gostava dela. Antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem
depois nem antes, e por nenhuma mulher fui amado jamais como fui...
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 Por tua prima? perguntei eu.
 No; por uma cria de casa.
Olhamos todos espantados um para outro. Ignorvamos esta circunstncia,
e estvamos a cem lguas de semelhante concluso. Coutinho no parece
atender ao nosso espanto; sacudia distraidamente a cinza do charuto e
parecia absorto na recordao que o seu esprito evocava.
 Chamava-se Mariana, continuou ele alguns minutos depois, e era uma
gentil mulatinha nascida e criada como filha da casa, e recebendo de minha
me os mesmos afagos que ela dispensava s outras filhas. No se sentava
 mesa, nem vinha  sala em ocasio de visitas, eis a diferena; no mais
era como se fosse pessoa livre, e at minhas irms tinham certa afeio
fraternal. Mariana possua a inteligncia da sua situao, e no abusava dos
cuidados com que era tratada. Compreendia bem que na situao em que
se achava s lhe restava pagar com muito reconhecimento a bondade de
sua senhora.
A sua educao no fora to completa como a de minhas irms; contudo,
Mariana sabia mais do que outras mulheres em igual caso. Alm dos
trabalhos de agulha que lhe foram ensinados com extremo zelo, aprendera
a ler e a escrever. Quando chegou aos 15 anos teve desejo de saber
francs, e minha irm mais moa lho ensinou com tanta pacincia e
felicidade, que Mariana em pouco tempo ficou sabendo tanto como ela.
Como tinha inteligncia natural, todas estas cousas lhe foram fceis. O
desenvolvimento do seu esprito no prejudicava o desenvolvimento de seus
encantos. Mariana aos 18 anos era o tipo mais completo da sua raa.
Sentia-se-lhe o fogo atravs da tez morena do rosto, fogo inquieto e vivaz
que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos naturalmente
encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo voluptuoso, p
pequeno e mos de senhora.  impossvel que eu esteja a idealizar esta
criatura que no entanto me desapareceu dos olhos; mas no estarei muito
longe da verdade.
Mariana era apreciada por todos quantos iam a nossa casa, homens e
senhoras. Meu tio, Joo Lus, dizia-me muitas vezes:  "Por que diabo est
tua me guardando aqui em casa esta flor peregrina? A rapariga precisa de
tomar ar".
Posso dizer, agora que j passou muito tempo, esta preocupao do tio
nunca me passou pela cabea; acostumado a ver Mariana bem tratada
parecia-me ver nela uma pessoa da famlia, e alm disso, ser-me-ia
doloroso contribuir para causar tristeza a minha me.
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Amlia ia l a casa algumas vezes; mas era o princpio, e antes que nenhum
namoro houvesse entre ns. Cuido, porm, que foi Mariana quem chamou a
ateno da moa para mim. Amlia deu-mo a entender um dia. O certo 
que uma tarde, depois de jantar, estvamos a tomar caf no terrao, e eu
reparei na beleza de Amlia com uma ateno mais demorada que de
costume. Fosse acaso ou fenmeno magntico, a moa olhava tambm para
mim. Prolongaram-se os nossos olhares... ficamos a amar um ao outro.
Todos os amores comeam pouco mais ou menos, assim.
Acho intil contar minuciosamente este namoro de rapaz, que vocs em
parte conhecem, e que no apresentou episdio notvel. Meus pais
aprovaram a minha escolha; os pais de Amlia fizeram o mesmo. Nada se
opunha  nossa felicidade. Preparei-me um dia de ponto em branco e fui
pedir a meu tio a mo da filha. Foi-me ela concedida, com a condio
apenas de que o casamento seria efetuado alguns meses depois, quando o
irmo de Amlia tivesse completado os estudos, e pudesse assistir 
cerimnia com a sua carta de bacharel.
Durante este tempo Mariana estava em casa de uma parenta nossa que nla
foi pedir para costurar uns vestidos. Mariana era excelente costureira.
Quando ela voltou para casa, estava assentado o meu casamento com
Amlia; e, como era natural, eu passava a maior parte do tempo em casa
da prima, saboreando aquelas castas efuses de amor e ternura que
antecedem o casamento. Mariana notou as minhas prolongadas ausncias,
e, com uma dissimulao assaz inteligente, indagou de minha irm Josefa a
causa delas. Disse-lho Josefa. Que se passou ento no esprito de Mariana?
No sei; mas no dia seguinte, depois do almoo quando eu me dispunha a ir
vestir-me, Mariana veio encontrar-me no corredor que ia ter ao meu quarto,
com o pretexto de entregar-me um mao de charuto que me cara do bolso.
O mao fora previamente tirado da caixa que eu tinha no quarto.
 Aqui tem, disse ela com voz trmula.
 O que ? perguntei.
 Estes charutos. . . caram do bolso de senhor moo.
 Ah!
Recebi o mao de charutos e guardei-o no bolso do casaco; mas durante
esse tempo, Mariana conservou-se diante de mim. Olhei para ela; tinha os
olhos postos no cho.
 Ento, que fazes tu? disse eu em tom de galhofa.
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 Nada, respondeu ela levantando os olhos para mim. Estavam rasos de
lgrimas.
Admirou-me essa manifestao inesperada da parte de uma rapariga que
todos estavam acostumados a ver alegre e descuidosa da vida. Supus que
houvesse cometido alguma falta e recorresse a mim para proteg-la junto
de minha me. Nesse caso a falta devia ser grande, porque minha me era
a bondade em pessoa, e tudo perdoava s suas amadas crias.
 Que tens, Mariana? perguntei.
E como ela no respondesse e continuasse a olhar para mim, chamei em
voz alta por minha me. Mariana apressou-se a tapar-me a boca, e
esquivando-se s minhas mos fugiu pelo corredor fora.
Fiquei a olhar ainda alguns instantes para ela, sem compreender nem as
lgrimas, nem o gesto, nem a fuga. O meu principal cuidado era outro; a
lembrana do incidente passou depressa, fui vestir-me e sai.
Quando voltei  casa no vi Mariana, nem reparei na falta dela. Acontecia
isso muitas vezes. Mas depois de jantar lembrou-me o incidente da vspera
e perguntei a Josefa o que haveria magoado a rapariga que to
romanescamente me falara no corredor.
 No sei, disse Josefa, mas alguma cousa haver porque Mariana anda
triste desde anteontem. Que supes tu?
 Alguma cousa faria e tem medo da mame.
 No, disse Josefa; pode ser antes algum namoro.
 Ah! tu pensas qu?
 Pode ser.
 E quem ser o namorado da senhora Mariana, perguntei rindo. O copeiro
ou o cocheiro?
 Tanto no sei eu; mas seja quem for, ser algum que lhe inspirasse
amor;  quanto basta para que se meream um ao outro.
 Filosofia humanitria! Filosofia de mulher, respondeu Josefa com um ar
to srio que me imps silncio.
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Mariana no me apareceu nos trs dias seguintes. No quarto dia, estvamos
almoando, quando ela atravessou a sala de jantar, tomou a bno a todos
e foi para dentro. O meu quarto ficava alm da sala de jantar e tinha uma
janela que dava para o ptio e enfrentava com a janela do gabinete de
costura. Quando fui para o meu quarto, Mariana estava nesse gabinete
ocupada em preparar vrios objetos para uns trabalhos de agulha. No
tinha os olhos em mim, mas eu percebia que o seu olhar acompanhava os
meus movimentos. Aproximei-me da janela e disse-lhe:
 Ests mais alegre, Mariana?
A mulatinha assustou-se, voltou a cara para diversos lados, como se tivesse
medo de que as minhas palavras fossem ouvidas, e finalmente imps-me
silncio com o dedo na boca.
 Mas que ? perguntei eu dando  minha voz a moderao compatvel
com a distancia.
Sua nica resposta foi repetir-me o mesmo gesto.
Era evidente que a tristeza de Mariana tinha uma causa misteriosa, pois que
ela receava revelar nada a esse respeito.
Que seria seno algum namoro como minha irm supunha? Convencido
disto, e querendo continuar uma investigao curiosa, aproveitei a primeira
ocasio que se me ofereceu.
 Que tens tu, Mariana? disse eu; andas triste e misteriosa.  algum
namorico? Anda, fala; tu s estimada por todos c de casa.
Se gostas de algum poders ser feliz com ele porque ningum te opor
obstculos aos teus desejos.
 Ningum? perguntou ela com singular expresso de incredulidade.
 Quem teria interesse nisso?
 No falemos nisso, nhonh. No se trata de amores, que eu no posso
ter amores. Sou uma simples escrava.
 Escrava,  verdade, mas escrava quase senhora. s tratada aqui como
filha da casa. Esqueces esses benefcios?
 No os esqueo; mas tenho grande pena em hav-los recebido.
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 Que dizes, insolente?
 Insolente? disse Mariana com altivez. Perdo! continuou ela voltando 
sua humildade natural e ajoelhando-se a meus ps; perdo, se disse aquilo;
no foi por querer: eu sei o que sou; mas se nhonh soubesse a razo
estou certa que me perdoaria.
Comoveu-me esta linguagem da rapariga. No sou mau; compreendi que
alguma grande preocupao teria feito com que Mariana esquecesse por
instantes a sua condio e o respeito que nos devia a todos.
 Est bom, disse eu, levanta-te e vai-te embora; mas no tornes a dizer
cousas dessas que me obrigas a contar tudo  senhora velha.
Mariana levantou-se, agarrou-me na mo, beijou-a repetidas vezes entre
lgrimas e desapareceu.
Todos estes acontecimentos tinham chamado a minha ateno para a
mulatinha. Parecia-me evidente que ela sentia alguma cousa por algum, e
ao mesmo tempo que o sentia, certa elevao e nobreza. Tais sentimentos
contrastavam com a fatalidade da sua condio social. Que seria uma
paixo daquela pobre escrava educada com mimos de senhora? Refleti
longamente nisto tudo, e concebi um projeto romantico: obter a confisso
franca de Mariana e, no caso em que se tratasse de um amor que a pudesse
tornar feliz, pedir a minha me a liberdade da escrava.
Josefa aprovou a minha idia, e incumbiu-se de interrogar a rapariga e
alcanar pela confiana aquilo que me seria mais difcil obter pela imposio
ou sequer pelo conselho.
Mariana recusou dizer cousa nenhuma a minha irm. Debalde empregou
esta todos os meios de seduo possveis entre uma senhora e uma
escrava. Mariana respondia invariavelmente que nada havia que confessar.
Josefa comunicou-me o que se passara entre ambas.
Tentarei eu, respondi; verei se sou mais feliz.
Mariana resistiu s minhas interrogaes repetidas, asseverando que nada
sentia e rindo de que se pudesse supor semelhante cousa. Mas era um riso
forado, que antes confirmava a suspeita do que a negativa .
 Bem, disse eu, quando me convenci de que nada podia alcanar; bem, tu
negas o que te pergunto. Minha me saber interrogar-te.
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Mariana estremeceu.
 Mas, disse ela, por que razo sinh velha h de saber disto? Eu j disse a
verdade.
 No disseste, respondi eu; e no sei por que recusas diz-la quando
tratamos todos da tua felicidade.
 Bem, disse Mariana com resoluo, promete que se eu disser a verdade
no me interrogar mais?
 Prometo, disse eu rindo.
 Pois bem;  verdade que eu gosto de uma pessoa...
 Quem ?
 No posso dizer.
 Por qu?
 Porque  um amor impossvel.
 Impossvel? Sabes o que so amores impossveis?
Roou pelos lbios da mulatinha um sorriso de amargura e dor.
 Sei! disse ela.
Nem pedidos, nem ameaas conseguiram de Mariana uma declarao
positiva a este respeito. Josefa foi mais feliz do que eu; conseguiu no
arrancar-lhe o segredo, mas suspeitar-lho, e veio dizer-me o que lhe
parecia.
 Que seja eu o querido de Mariana? perguntei-lhe com um riso de mofa e
incredulidade. Ests louca, Josefa. Pois ela atrever-se-ia! . . .
 Parece que se atreveu.
 A descoberta  galante; e realmente no sei o que pense disto . . .
No continuei, disse a Josefa que no falasse em semelhante cousa e
desistisse de maiores exploraes. Na minha opinio o caso tomava outro
carter; tratava-se de uma simples exaltao de sentidos.
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Enganei-me.
Cerca de cinco semanas antes do dia marcado para o casamento, Mariana
adoeceu. O mdico deu  molstia um nome brbaro, mas na opinio de
Josefa era doena de amor. A doente recusou tomar nenhum remdio;
minha me estava louca de pena; minha irms sentiam deveras a molstia
da escrava. Esta ficava cada vez mais abatida; no comia, nem se
medicava; era de recear que morresse. Foi nestas circunstncias que eu
resolvi fazer um ato de caridade. Fui ter em Mariana e pedi-lhe que vivesse.
 Manda-me viver? perguntou ela.
 Sim.
Foi eficaz a lembrana; Mariana restabeleceu-se em pouco tempo. Quinze
dias depois estava completamente de p.
Que esperanas concebera ela com as minhas palavras, no sei; cuido que
elas s tiveram efeito por lhe acharem o esprito abatido. Acaso contaria ela
que eu desistisse do casamento projetado e do amor que tinha  prima,
para satisfazer os seus amores impossveis? No sei; o certo  que no s
se lhe restaurou a sade como tambm lhe voltou a alegria primitiva.
Confesso, entretanto que, apesar de no competir de modo nenhum os
sentimentos de Mariana, entrei a olhar para ela com outros olhos. A
rapariga tornara-se interessante para mim, e qualquer que seja a condio
de uma mulher, h sempre dentro de ns um fundo de vaidade que se
lisonjeia com a afeio que ela nos vote. Alm disto, surgiu em meu esprito
uma idia que a razo pode condenar, mas que nossos costumes aceitam
perfeitamente. Mariana encarregara-se de provar que estava acima das
veleidades. Um dia de manh fui acordado pelo alvoroo que havia em casa.
Vesti-me  pressa e fui saber o que era. Mariana tinha desaparecido de
casa. Achei minha me desconsoladssima: estava triste e indignada ao
mesmo tempo. Doa-lhe a ingratido da escrava. Josefa veio ter comigo.
 Eu suspeitava, disse ela, que alguma cousa acontecesse. Mariana
andava alegre demais; parecia-me contentamento fingido para encobrir
algum plano. O plano foi este. Que te parece?
 Creio que devemos fazer esforos para captur-la, e uma vez restituda 
casa, coloc-la na situao verdadeira do cativeiro.
Disse isto por me estar a doer o desespero de minha me. A verdade  que,
por simples egosmo, eu desculpava o ato da rapariga.
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Parecia-me natural, e agradava-me ao esprito, que a rapariga tivesse
fugido para no assistir  minha ventura, que seria realidade da a oito dias.
Mas a idia de suicdio veio aguar-me o gosto; estremeci com a suspeita de
ser involuntariamente causa de um crime dessa ordem; impelido pelo
remorso, sa apressadamente em busca de Mariana.
Achei-me na rua sem saber o que devia fazer. Andei cerca de vinte minutos
inutilmente, at que me ocorreu a idia natural de recorrer  polcia; era
prosaica a interveno da polcia, mas eu no fazia romance; ia
simplesmente em cata de uma fugitiva.
A polcia nada sabia de Mariana; mas l deixei a nota competente; correram
agentes em todas as direes: fui eu mesmo saber nos arrabaldes se havia
notcia de Mariana. Tudo foi intil; s trs horas da tarde voltei para casa
sem poder tranqilizar minha famlia. Na minha opinio tudo estava
perdido.
Fui  noite  casa de Amlia, aonde no fora de tarde, motivo pelo qual
havia recebido um recado em carta a uma de minhas irms. A casa de
minha prima ficava em uma esquina. Eram oito horas da noite quando
cheguei  porta da casa. A trs ou quatro passos estava um vulto de mulher
cosido com a parede. Aproximei-me: era Mariana.
 Que fazes aqui? perguntei eu.
 Perdo, nhonh; vinha v-lo.
 Ver-me? mas por que saste de casa, onde eras to bem tratada, e donde
no tinhas o direito de sair, porque s cativa?
 Nhonh, eu sa porque sofria muito...
 Sofrias muito! Tratavam-te mal? Bem sei o que ; so os resultados da
educao que minha me te deu. J te supes senhora e livre. Pois
enganas-te; hs de voltar j, e j, para casa. Sofrers as conseqncias da
tua ingratido. Vamos...
 No! disse ela; no irei.
 Mariana, tu abusas da afeio que todos temos por ti. Eu no tolero essa
recusa, e se me repetes isso...
 Que far?
14
 Irs  fora- irs com dous soldados.
 Nhonh far isso? disse ela com voz trmula. No quero obrig-lo a
incomodar os soldados, iremos juntos, ou irei s. O que eu queria,  que
nhonh no fosse to cruel... porque enfim eu no tenho culpa se...
Pacincia! vamos... eu vou.
Mariana comeou a chorar. Tive pena dela.
 Tranquiliza-te, Mariana, disse-lhe; eu intercederei por ti. Mame no te
far mal.
 Que importa que faa? Eu estou disposta a tudo... Ningum tem que ver
com as minhas desgraas. . . Estou pronta; podemos ir.
 Saibamos outra cousa, disse eu, algum te seduziu para fugir?
Esta pergunta era astuciosa; eu desejava apenas desviar do esprito da
rapariga qualquer suspeita de que eu soubesse dos seus amores por mim.
Foi desastrada a astcia. O nico efeito da pergunta foi indign-la.
 Se algum me seduziu? perguntou ela; no, ningum; fugi porque eu o
amo, e no posso ser amada, eu sou uma infeliz escrava. Aqui est por que
eu fugi. Podemos ir; j disse tudo. Estou pronta a carregar com as
conseqncias disto.
No pude arrancar mais nada  rapariga. Apenas quando lhe perguntei se
havia comido, respondeu-me que no, mas que no tinha fome.
Chegamos  casa eu e ela perto das nove horas da noite. Minha me j no
tinha esperanas de tornar a ver Mariana; o prazer que a vista da escrava
lhe deu foi maior que a indignao pelo seu procedimento. Comeou por
invectiv-la. Intercedi a tempo de acalmar a justa indignao de minha me
e Mariana foi dormir tranqilamente.
No sei se tranqilamente. No dia seguinte tinha os olhos inchados e estava
triste. A situao da pobre rapariga interessara-me bastante, o que era
natural, sendo eu a causa indireta daquela dor profunda. Falei muito nesse
episdio em casa de minha prima. O tio Joo Lus disse-me em particular
que eu fora um asno e um ingrato.
 Por qu? perguntei-lhe.
15
 Porque devias ter posto Mariana debaixo da minha proteo, a fim de
livr-la do mau tratamento que vai ter.
 Ah! no, minha me j lhe perdoou.
 Nunca lhe perdoar como eu.
Falei tanto em Mariana que minha prima entrou a sentir um disparatado
cime. Protestei-lhe que era loucura e abatimento ter zelos de uma cria de
casa, e que o meu interesse era simples sentimento de piedade. Parece que
as minhas palavras no lhe fizeram grande impresso.
Extremamente leviana, Amlia no soube conservar a necessria dignidade,
quando foi a minha casa. Conversou muito na necessidade de tratar
severamente as escravas, e achou que era dar mau exemplo mandar-lhes
ensinar alguma cousa.
Minha me admirou-se muito desta linguagem na boca de Amlia e
redarguiu com aspereza o que lhe dava direito a sua vontade. Amlia
insistiu; minhas irms combateram as suas opinies: Amlia ficou amuada.
No havia pior posio para uma senhora.
Nada escapara a Mariana desta conversa entre Amlia e minha famlia; mas
ela era dissimulada e nada disse que pudesse trair os seus sentimentos.
Pelo contrrio redobrou de esforos para agradar a minha prima; desfez-se
em agrados e respeitos. Amlia recebia todas essas demonstraes com
visvel sobranceria em vez de as receber com fria dignidade.
Na primeira ocasio em que pude falar a minha prima, chamei a sua
ateno para esta situao absurda e ridcula. Disse-lhe que, sem o querer,
estava a humilhar-se diante de uma escrava. Amlia no compreendeu o
sentimento que me ditou estas palavras, nem a procedncia das minhas
palavras. Viu naquilo uma defesa de Mariana; respondeu-me com algumas
palavras duras e retirou-se para os aposentos de minhas irms onde chorou
 vontade. Finalmente tudo se acalmou e Amlia voltou tranqila para casa.
Quatro dias antes do dia marcado para o meu casamento, era a festa do
natal. Minha me costumava dar festas s escravas. Era um costume que
lhe deixara minha av. As festas consistiam em dinheiro ou algum objeto de
pouco valor. Mariana recebia ambas as cousas por uma especial graa. De
tarde tiveram gente em casa para jantar: alguns amigos e parentes. Amlia
estava presente. Meu tio Joo Lus era grande amador de discursos 
sobremesa. Mal comeavam a entrar os doces, quando ele se levantou e
comeou um discurso que a julgar pelo intrito, devia ser extenso. Como
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ele tinha suma graa, eram gerais as risadas desde que empunhou o copo.
Foi no meio dessa geral alegria que uma das escravas veio dar parte de que
Mariana havia desaparecido.
Este segundo ato de rebeldia da mulatinha produziu a mais furiosa
impresso em todos. Da primeira vez houve alguma mgoa e saudade de
mistura com a indignao. Desta vez houve indignao apenas. Que
sentimento devia inspirar a todos a insistncia dessa rapariga em fugir de
uma casa onde era tratada como filha? Ningum duvidou mais que Mariana
era seduzida por algum, idia que na primeira vez se desvaneceu mediante
uma piedosa mentira da minha parte; como duvidar agora?
Tais no eram as minhas impresses. Senhor do funesto segredo da
escrava, sentia-me penalizado por ser causa indireta das loucuras dela e
das tristezas de minha me. Ficou assentado que se procuraria a fugitiva e
se lhe daria o castigo competente. Deixei que esse momento de clera se
consumasse, e levantei-me para ir procurar Mariana.
Amlia ficou desgostosa com esta resoluo, e bem o revelou no olhar; mas
eu fingi que a no percebia e sa.
Dei os primeiros passos necessrios e usuais. A polcia nada sabia, mas
ficou avisada e empregou meios para alcanar a fugitiva. Eu suspeitava que
desta vez ela tivesse cometido suicdio; fiz neste sentido as diligncias
necessrias para ter alguma notcia dela viva ou morta.
Tudo foi intil.
Quando voltei  casa eram dez horas da noite; todos estavam  minha
espera, menos o tio e a prima que j se haviam retirado.
Minha irm contou-me que Amlia sara furiosa, porque achava que eu
estava dando maior ateno do que devia a uma escrava, embora bonita,
acrescentou ela.
Confesso que naquele momento o que me preocupava mais, era Mariana;
no porque eu correspondesse aos seus sentimentos por mim, mas porque
eu sentia srios remorsos de ser causa de um crime. Fui sempre pouco
amante de aventuras e lances arriscados e no podia pensar sem algum
terror na possibilidade de morrer algum por mim.
Minha vaidade no era tamanha que me abafasse os sentimentos de
piedade crist. Neste estado as invectivas da minha noiva no me fizeram
grande impresso, e no foi por causa delas que eu passei a noite em claro.
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Continuei no dia seguinte as minhas pesquisas, mas nem eu nem a polcia
fomos felizes.
Tendo andado muito, j a p, j de tlburi, achei-me s cinco horas da tarde
no Largo de S. Francisco de Paula, com alguma vontade de comer; a casa
ficava um pouco longe e eu queria continuar depois as minhas
averiguaes. Fui jantar a um hotel que ento havia na antiga Rua dos
Latoeiros.
Comecei a comer distrado e ruminando mil idias contrrias, mil suposies
absurdas. Estava no meio do iantar quando vi descer do segundo andar da
casa um criado com uma bandeja onde havia vrios pratos cobertos.
 No quer jantar, disse o criado ao dono do hotel que se achava no
balco.
 No quer? perguntou este; mas ento. . . no sei o que faa. . .
reparaste se... Eu acho bom ir chamar a polcia.
Levantei-me da mesa e aproximei-me do balco.
 De que se trata? perguntei eu.
 De uma moa que aqui apareceu ontem, e que ainda no comeu at
hoje...
Pedi-lhe os sinais da pessoa misteriosa. No havia dvida. Era Mariana.
 Creio que sei quem , disse eu, e ando justamente em procura dela.
Deixe-me subir.
O homem hesitou; mas a considerao de que no lhe podia convir
continuar a ter em casa uma pessoa por cuja causa viesse a ter questoes
com a polcia, fez com que me deixasse o caminho livre.
Acompanhou-me o criado, a quem incumbi de chamar por ela, porque se
conhecesse a minha voz, supunha eu que me no quisesse abrir.
Assim se fez. Mariana abriu a porta e eu apareci. Deu um grito estridente e
lanou-se-me nos braos. Repeli aquela demonstrao com toda a brandura
que a situao exigia.
 No venho aqui para receber-te abraos, disse eu; venho pela segunda
vez buscar-te para casa, donde pela segunda vez fugiste.
18
A palavra fugiste escapou-me dos lbios; todavia, no lhe dei importncia
seno quando vi a impresso que ela produziu em Mariana. Confesso que
devera ter alguma caridade mais; mas eu queria conciliar os meus
sentimentos com os meus deveres, e no fazer com que a mulher no se
esquecesse de que era escrava. Mariana parecia disposta a sofrer tudo dos
outros, contanto que obtivesse a minha compaixo. Compaixo tinha-lhe
eu; mas no lho manifestava, e era esse todo o mal.
Quando a fugitiva recobrou a fala, depois das emoes diversas por que
passara desde que me viu chegar, declarou positivamente que era sua
inteno no sair dali. Insisti com ela dizendo-lhe que poderia ganhar tudo
procedendo bem, ao passo que tudo perderia continuando naquela situao.
 Pouco importa, disse ela; estou disposta a tudo.
 A matar-te, talvez? perguntei eu.
 Talvez, disse ela sorrindo melancolicamente; confesso-lhe at que a
minha inteno era morrer na hora do seu casamento, a fim de que
fossemos ambos felizes,  nhonh casando-se, eu morrendo.
 Mas desgraada, tu no vs que...
 Eu bem sei o que vejo, disse ela; descanse; era essa a minha inteno,
mas pode ser que o no faa...
Compreendi que era melhor lev-la pelos meios brandos; entrei a empreglos
sem esquecer nunca a reserva que me impunha a minha posio.
Mariana estava resolvida a no voltar. Depois de gastar cerca de uma hora,
sem nada obter, declarei-lhe positivamente que ia recorrer aos meios
violentos, e que j lhe no era possvel resistir. Perguntou-me que meios
eram; disse-lhe que eram os agentes policiais.
 Bem vs, Mariana, acrescentei, sempre hs de ir para casa;  melhor que
me no obrigues a um ato que me causaria alguma dor.
 Sim? perguntou ela com nsia; teria dor em levar-me assim para casa?
 Alguma pena teria decerto, respondi; porque tu foste sempre boa
rapariga; mas que farei eu se continuas a insistir em ficar aqui?
Mariana encostou a cabea  parede e comeou a soluar; procurei acalmla-
foi impossvel. No havia remdio; era necessrio empregar o meio
19
herico. Sa ao corredor para chamar pelo criado que tinha descido logo
depois que a porta se abriu.
Quando voltei ao quarto, Mariana acabava de fazer um movimento suspeito.
Parecia-me que guardava alguma cousa no bolso. Seria alguma arma?
 Que escondeste a? perguntei eu.
 Nada, disse ela.
 Mariana, tu tens alguma idia terrvel no esprito... Isso  alguma arma...
 No, respondeu ela.
Chegou o criado e o dono da casa. Expus-lhes em voz baixa o que queria; o
criado saiu, o dono da casa ficou.
 Eu suspeito que ela tem alguma arma no bolso para matar-se; cumpre
arrancar-lha.
Dizendo isto ao dono da casa, aproximei-me de Mariana.
 D-me o que tens a.
Ela contraiu um pouco o rosto. Depois, metendo a mo no bolso, entregoume
o objeto que l havia guardado.
Era um vidro vazio.
 Que  isto, Mariana? perguntei eu, assustado.
 Nada, disse ela; eu queria matar-me depois d'amanh. Nhonh apressou
a minha morte, nada mais.
 Mariana! exclamei eu aterrado.
 Oh! continuou ela com voz fraca; no lhe quero mal por isso. Nhonh no
tem culpa: a culpa  da natureza. S o que eu lhe peo  que no me tenha
raiva, e que sc lembre algumas vezes de mim. . .
Mariana caiu sobre a cama. Pouco depois entrava o inspetor. Chamou-se 
pressa um mdico; mas era tarde. O veneno era violento; Mariana morreu
s 8 horas da noite.
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Sofri muito com este acontecimento; mas alcancei que minha me
perdoasse  infeliz, confessando-lhe a causa da morte dela. Amlia nada
soube, mas nem por isso deixou o fato de influir em seu esprito. O
interesse com que eu procurei a rapariga, e a dor que a sua morte me
causou, transtornaram a tal ponto os sentimentos da minha noiva, que ela
rompeu o casamento dizendo ao pai que havia mudado de resoluo.
Tal foi, meus amigos, este incidente da minha vida. Creio que posso dizer
ainda hoje que todas as mulheres de quem tenho sido amado, nenhuma me
amou mais do que aquela. Sem alimentar-se de nenhuma esperana,
entregou-se alegremente ao fogo do martrio amor obscuro, silencioso,
desesperado, inspirando o riso ou a indignao, mas no fundo, amor imenso
e profundo, sincero e inaltervel.
Coutinho concluiu assim a sua narrao, que foi ouvida com tristeza por
todos ns. Mas da a pouco saamos pela Rua do Ouvidor fora, examinando
os ps das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil
reflexes mais ou menos engraadas e oportunas. Duas horas de conversa
tinha-nos restitudo a mocidade.
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21
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
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Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
23
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
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Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
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um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
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E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
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Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
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(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
29
com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
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As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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